Não precisa brilhar, precisa apenas jogar
maio01

Não precisa brilhar, precisa apenas jogar

Quem quiser que comemore o empate. Eu não tenho nada para comemorar. Saí do Arruda numa mistura de raiva e alivio. Pra mim, esse empate serve apenas para não ficarmos entre os últimos na classificação geral e para mostrar ao elenco e ao treinador que Serie C é mão no bucho e pé na cara. Por pouco não levamos uma lapada dos paraibanos. Uma equipe que tem como capitão um idoso de 44 anos. O cidadão que foi ontem para o Arruda e que não havia assistido ao jogo contra o Fluminense, deve ter ficado desconfiado do que disseram do nosso futebol contra os cariocas. Já quem foi na quinta e foi ontem, ficou mordido de raiva com a postura e lerdeza do Santa Cruz contra o Treze Tapetão Clube. É claro que não brilharemos sempre. Nisto eu concordo com o que o treinador do Santa falou. Mas meu nobre, não é necessário brilho nenhum para conseguir vencer um time como este do Treze. Nesse jogo de estreia, nosso lado direito parecia uma BR-101 sem trânsito e sem lombada eletrônica. Por todo o primeiro tempo, os caras passavam tranquilos e calmos, do jeito que queriam e ninguém fazia nada. No meio campo, criação zero. No ataque, somente o esforço de Pipico e Augusto. E Jô? Alguém precisa explicar que aberração é esta. Este rapaz não consegue cruzar uma bola certa. Não sabe driblar nem um cone e quando perde uma jogada, se joga no chão. Jô é apenas um peladeiro ruim que teve a sorte de ser o cara que fez o primeiro gol e que iniciou a jogada do segundo gol no jogo contra o Fluminense. E que, por este fato histórico, hipnotizou e iludiu o técnico do seu time. “Ele fez um gol e deu o passe para o outro gol”, assim disse Leston Jr na coletiva, justificando a escalação do desgraçado. Nem o mais humilde torcedor se iludiu com a tal façanha de Jô. Antes do jogo de ontem, o que mais se ouviu foi: “puta-que-pariu, Jô vai entrar de frente”. Durante a partida, a turma se esgoelava na arquibancada: “vai te fuder! Que jogador ruim do caralho! Tira Jô, treinador burro. Tira essa miséria”! Se for pelo raciocínio do nosso técnico, no jogo de ontem, Neto Costa e Guilherme Queiroz conquistaram a titularidade. Os caras entraram e fizeram os gols e nos salvaram de uma estreia vergonhosa na sericê. Indo por essa lógica aí, quem também vai conseguir um espaço nas quatro linhas é o cachorro Muriçoca. Ele entrou em campo, desmantelou o time paraibano e garantiu uns minutos de descontos pra gente fazer o...

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A mais apaixonada do mundo
abr26

A mais apaixonada do mundo

Fui dar um abraço de aniversário em Chiló e me mandei pro Arruda. As ruas eram só preto, branco e vermelho. Já era a terceira viagem que o motorista do Uber fazia para o Arruda. A fila para entrar no portão 7 estava chegando no canal. Uma senhora negra vestia uma camisa com a imagem de Nossa Senhora do Carmo estampada de canto a canto na frente da camisa. “Tou com a camisa do Santa por baixo” e levantou pra gente ver. “Passei o dia vestida com a camisa de Nossa Senhora da Conceição e vim pro jogo com essa. Sou devota de Conceição e de Nossa Senhora do Carmo. A gente vai ganhar”. O olhar dela era de fé. A fé que reza e paga promessa para santos e orixás. A fé no Santa Cruz. Alessandra sorriu pra ela e sussurrou emocionada: “essa é a cara da nossa torcida. Linda”. Conseguimos entrar, a bola já havia rolado. Encontramos Samarone, Julio Vila Nova e Helder. Fomos em bloco pro cimento. Conseguimos subir e nos posicionamos ao lado da P-10. De longe avistei Chiló e Geó. Vi também Odilon. Anizio apareceu. Robson Sena nos encontrou. Encontramos Marconi. Um pouco mais adiante estavam Fabiano, Bruno Fontes e Kiko. De corpo ou de alma, todos os tricolores corais santacruzenses das bandas do Arruda estavam ali. Não me canso de ler os comentários sobre nós. André Rizek escreveu em seu twiter: ”  O determinado time do Santa Cruz deu aula de estratégia de como enfrentar um adversário superior. Sua espetacular torcida transformou o que era para ser um jogo protocolar em  noite memorável. Espetáculo da galera coral no Arruda. Serie A sem Pernambuco nem deveria ter esse nome.” O peito se enche de orgulho e o coração de alegria. Mas tem que ter sangue, corpo e espirito com as cores corais, para saber o que é ser Santa Cruz. É o povão que defende, bate falta e cobra escanteio. É a massa coral que corre, chuta e faz gol. A arrancada de Augusto no segundo gol só foi possível porque a João, Simone, André Cabeção, Alicate e Morena aceleraram o passo do nosso ponta e ele disparou com a bola. Pipico só chegou para fazer o arremate final porque Raquel, Cris, Seu Amaro Mão de Oléo e Carlito deram fôlego ao nosso artilheiro. Ontem fomos 25 mil em um mesmo grito, em um mesmo abraço, num mesmo sorriso. Somos todos, um só. E quando o clube e o time se agarram a nós, tudo se transforma. Até Jô faz um golaço daqueles. Segunda-feira, estaremos lá. Para começar a arrancada para Serie B.  Com...

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Futebol e cu (ou futebol-cu)
mar29

Futebol e cu (ou futebol-cu)

Meu pai sempre me levava pra ver o Santa Cruz, desde que o jogo fosse no nosso campo e num dia de domingo. Foi no Arruda que pela primeira vez ouvi um ser humano falar com tanta ênfase a palavra cu. Eu tinha uns seis anos de idade. “Soca esse apito no olho do teu cu, juiz filho-da-puta”, berrou um moço que estava ao lado da gente. Um grito tão grande que me deu a impressão que todo o estádio ouviu. Passei o restante do jogo observando mais o cara que gritou aqueles palavrões, do que os lances da partida. Durante vários dias, aquele cu que ouvi ficou ecoando no meu juízo. Acho que pelo fato de, apesar de filho-da-puta ser um palavrão com mais sonoridade rítmica, cu é ser mais significativo. Dali pra frente, todas as vezes que eu ía ao jogo do Santa, ficava ligado nessa coisa de cu. Se não existisse essa palavra monossilábica, o trabalho das ambulâncias e dos bombeiros seria dobrado. Não fosse o diafragma expelir com tanto vigor os cus pelo estádio, muita gente passaria mal e até morreria. Certa vez, um senhor gordão, por pouco não teve um ataque dos nervos perto da gente. Era um jogo a noite. Eu tinha uns doze anos. O gordão tinha um bigode e segurava um guarda-chuva. A gente dominava a partida, mas não fazia gol. A cada chance perdida, o gordo falava um palavrão: “puta-que-pariu! Vai te fuder! Porra! Caralho!” E, obviamente, vai- tomar-no-cu! Em um dos lances perdidos, o atacante entra na área. Ele, o goleiro e a barra. Um gol feito. Mas o chute sai torto e a bola vai pra fora.  “Vai-tomar-no-cu. Vai-tomar-no-cu. Vai-to-mar-no-teu-cu, porraaaaa!”, a última frase já saiu com o restante de ar que estava dentro do gordão. Ele ficou vermelho e sem voz. A turma começou a abanar ele. Alguém pediu água. Um amigo do meu pai morria de rir. Um cara gritou: chama o bombeiro, chama o bombeiro. Mas o gordo sobreviveu, sem precisar de ajuda médica. Na época da Sanfona Coral, nossa turma ficava na arquibancada, exatamente no lado que o bandeirinha estava. Para ser mais preciso, a Sanfona se posicionava olhando para o banco de reservas do adversário. Daí, estávamos sempre no pé do ouvido do bandeira. Numa ocasião, não lembro qual foi o jogo, Rosembrick meteu uma bola pra Carlinhos Bala, seria gol certo. Mas o bandeirinha marcou impedimento. No rádio disse que não estava impedido. A jogada era bem duvidosa. No meio dos xingamentos, um torcedor saiu com essa: “tu é corno de cu, bandeirinha”. Um garoto que estava perto, perguntou: “pai, o que...

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Três cores, dois nomes e uma paixão
jan31

Três cores, dois nomes e uma paixão

Mal começou o jogo, gol do Santa. Eles se abraçaram. Se apertaram. Parecia um corpo só. Logo em seguida, dois minutos depois, numa bobeira fenomenal, o time sofre o empate. Um gol besta, típico de pelada. O pau ainda estava um pouco duro. Se olharam. Não deram uma palavra. O jogo foi ficando truncado. O Santa Cruz parecia que iria se atrapalhar com a equipe do Afogados. P… foi comprar cerveja. L… ficou só e lembrou da ultima vez que tinham ido ao Arruda. Havia sido no jogo contra o Operário, na sericê. Estádio lotado, adrenalina nas alturas, nervosismo geral, o Mundão estava lindo naquele domingo. Foram para arquibancada. Veio a lembrança da bebedeira depois da partida e da farra que fizeram. “Foi loucura”, recordou. E viu que estava com a mesma camisa daquele dia. Uma retrô do ídolo Birigui. Treparam bastante naquele dia. P.. voltou com a cerveja. “Trouxe um copo pra nós dois. Pra não esquentar”. Numa bola que sobra na entrada da área, ali entre a meia-lua e o lado direito do nosso ataque, Diogo Lorenzi acerta um chutaço. P… e L… estavam de mãos dadas, trocavam carinhos. A pelota sai rasgando o ar na diagonal, meia altura e estufa o barbante. Um golaço. Desses de limpar a vista e de avisar ao adversário sobre quem manda na partida. P… abraçou L… por trás. L… bebeu o restante da cerveja num único gole. Quis beijar P…! Sentiu seu fôlego acariciando sua orelha. “Vai comprar mais cerveja. Deu sorte!”. Dali pra frente dominamos a partida. Impomos nosso ritmo. Mas o time do sertão não é dos piores. P… voltou com outro copo de cerveja. Mal bebeu a primeira golada, Jô toca voltando para Marcos Martins, nosso lateral-direito faz um cálculo rápido que inclui distância, força, velocidade e jeito de chutar e manda a bola certinha pelo alto em direção a Elias. Nosso atacante rapidamente resolve a equação: força x distância x altura x jeito e manda de cabeça tirando do alcance do goleiro. Outro golaço. Como cruza bem esse nosso lateral. E como o garoto Elias não se intimida com nada. É daqueles que não tem vergonha de fazer o que sabe. Já virou xodó da torcida. O primeiro tempo acaba. A massa coral ri a toa. Como diz Naná da Kombi Coral, “a gente tá dominando”. P… e L… fazem uma self e postam no Instagram. “Tu lembra do último jogo no Arruda, contra o Operário? Eu estava com essa mesma camisa”. “Claro que lembro. Só não lembrava da camisa.” E cochichou no ouvido de L…: “me deu o maior tesão agora!”. E deu um beijinho...

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A fé é preta-branca-vermelha
jan14

A fé é preta-branca-vermelha

Parece que faz um ano que estamos sem ver o Santa jogar. Este calendário da sericê é cruel. Deixa um vazio danado. Mas para alegria da torcida mais apaixonado do Brasil, terça-feira começa nossa temporada. Jogaremos em João Pessoa pela Copa do Nordeste.A gente vai encontrando os tricolores corais santacruzenses das bandas do Arruda e as perguntas se repetem.“E aí, tás acreditando?”“E esse ano, será que a gente chega?”“E fulano?”. “E sicrano?”. “E beltrano?”Peito de Pombo me perguntou o que eu estava achando dos contratados.Diante de tantas idas e vindas e de toda a minha quilometragem rodada acompanhando e torcendo, a esperança já não é mais da mesma cor de antes. Eu já nem ligo muito para as contratações.Mas não disse isto a ele, pra não cortar o seu barato. Tirei uma onda. “Rapaz, trouxeram um atacante aí que faz uns doze anos que não faz gol”. Peito disse: “vai fazer pelo Santa Cruz. A gente sempre ressuscita esses jogadores”.Acho massa essa fé.Minha filha menor disse que tava com saudades do Arruda. Me perguntou: “papai, Ricardo Ernesto ainda tá no Santa?”. Respondi que sim. Ela ficou super animada. “Ele é muito bom. É muito melhor do que aquele Gordinho! ” Deu uma pausa e continuou: “Ri-car-do Er-nes-to! Que nome! Queria tirar uma foto com ele”.Contei para ela que finalmente, vamos ter um placar eletrônico no Arruda. Ela não faz ideia do que seja. Não só ela. Ela e tantas outras crianças que frequentam o Arruda não fazem ideia do que seja um placar eletrônico.“Como assim, um placar eletrônico?”.Fui procurando formas de explicar àquela cabecinha o que era um placar eletrônico. Um painel luminoso. Bem grande. Que informa quanto está o jogo. Nele aparece o nome dos jogadores. O nome de quem fez o gol.“Aparece o nome do goleiro?”.“Aparece. Do goleiro, do zagueiro, do atacante, de todo mundo. As vezes aparece até a foto.”“uh-hu! Vai ser massa! Eu queria ver a foto de Pipico, tu queria ver a de quem, papai?”“Hum…. peraí! Queria ver…, já sei. Sabe o que eu queria ver?”“O que?”“Queria ver o placar piscando a palavra Gooollllll e mostrando a foto de Jô. E no final da sericê, eu quero ver escrito no placar: Santa Cruz, bicampeão da Serie C”.“Aê, papai!”, ela chegou batendo.E eu pensei, “a fé é...

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